Paradigmas Teóricos e Práticos Moldam a Formação Técnica em Radiologia

Uma análise profunda sobre as estratégias pedagógicas mais eficazes na formação de técnicos em Radiologia Médica está em curso, com foco especial na Escola Estadual Técnica em Saúde no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O debate central visa desvendar a melhor abordagem para o aprendizado de estudantes da disciplina de técnicas radiológicas, confrontando a relevância da teoria e da prática no desenvolvimento de profissionais competentes.

A Regulamentação da Profissão e Suas Implicações na Educação

Até meados da década de 1980, a área das técnicas radiológicas no Brasil era predominantemente exercida pelos chamados Operadores de RX. A capacitação desses profissionais, naquele período, acontecia majoritariamente por meio da orientação de médicos radiologistas, sendo muitas vezes de natureza empírica e autodidata. A estrutura educacional formal para a profissão era limitada, com poucas instituições de ensino oferecendo cursos, a maioria sem regulamentação pelo sistema educacional vigente.

Uma mudança significativa ocorreu com a promulgação da Lei nº 7.394, em 29 de outubro de 1985. Essa legislação foi crucial para regulamentar a profissão de Técnico em Radiologia no Brasil. Conforme seu primeiro artigo, a lei não apenas estabeleceu a existência formal da profissão, mas também detalhou as diversas áreas de atuação permitidas aos profissionais, em conformidade com sua formação e qualificação específicas. Este marco legal conceituou como Técnico em Radiologia todo Operador de Raios X que desempenhava profissionalmente técnicas em diferentes setores, como:

  • Radiológica, especificamente no setor de diagnóstico;
  • Radioterápica, direcionada ao setor de terapia;
  • Radioisotópica, atuando no setor de radioisótopos;
  • Industrial, para o setor da indústria;
  • De medicina nuclear.

A partir da data de regulamentação, a formação de todos os profissionais das técnicas radiológicas foi inserida sob o escopo das legislações educacionais brasileiras que ditam as normas e diretrizes para os cursos de nível técnico no país. Isso impulsionou a necessidade de um arcabouço pedagógico mais estruturado e alinhado com as exigências da educação formal, distanciando-se do modelo autodidata e empírico que predominava anteriormente.

Formação Teoria e Prática: Pilares do Desenvolvimento Profissional

No esforço para estruturar a elaboração de estágios e proporcionar um embasamento teórico robusto, pesquisadores buscaram suporte em autores que oferecem visões complementares sobre o processo de aprendizagem. Entre os autores considerados fundamentais para alicerçar o pensamento pedagógico estão Xavier Roegiers e David Ausubel, cujas contribuições fornecem perspectivas valiosas para a discussão sobre teoria e prática na formação técnica em Radiologia.

A Contribuição de Xavier Roegiers: A Abordagem por Competências

Xavier Roegiers é uma figura proeminente no campo da engenharia da educação e da formação, atuando como Presidente do Gabinete de Engenharia da Educação e da Formação (BIEF) e como professor na Universidade Catholique de Louvain (UCL). Sua formação inclui engenharia e um doutorado em Ciências da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Leuven, o que o credencia a discorrer sobre temas complexos da pedagogia moderna. Seus interesses de pesquisa abrangem as reformas curriculares, a abordagem curricular baseada em habilidades (competências) e os métodos de avaliação da aprendizagem escolar. O trabalho de Roegiers sobre a Abordagem por Competências e a Pedagogia da Integração é particularmente relevante para o contexto da formação técnica em saúde.

Para Roegiers, o conceito de competência, em um sentido geral, pode ser definido como o “saber-fazer”. Isso implica o desenvolvimento da capacidade do aprendiz para resolver problemas concretos em situações diversas. Aplicado ao ambiente escolar, especialmente no ensino técnico, ser competente significa a aptidão para solucionar uma situação-problema no campo profissional, o que, em essência, remete à aplicação prática dos conhecimentos e habilidades adquiridos.

Para que essa competência seja desenvolvida, o papel do professor, ou formador, é fundamental. Ele deve ser o facilitador que fornece aos alunos (ou participantes) as ferramentas essenciais, que Roegiers denomina recursos. Estes recursos englobam:

  • Saberes: Os conhecimentos teóricos e conceituais;
  • Saber-fazer: As habilidades práticas e procedimentais;
  • Saber-ser: As atitudes, valores e comportamentos profissionais.

Além de fornecer esses recursos, o educador tem a tarefa crucial de ensinar os estudantes a mobilizá-los e utilizá-los de forma eficaz para resolver uma situação-problema. A habilidade de conjugar esses três tipos de recursos é o cerne da competência.

Pedagogia da Integração no Contexto Radiológico

A “Pedagogia da Integração”, um conceito chave em Roegiers, na Radiologia se manifesta na capacidade de utilizar os conhecimentos, o saber-fazer e o saber-ser de forma concreta em situações profissionais rotineiras. Exemplos claros da aplicação dessa pedagogia incluem:

  • Avaliar com precisão as requisições médicas;
  • Preparar adequadamente a sala para a execução de exames;
  • Orientar o paciente de forma clara e segura antes, durante e após o procedimento;
  • Atuar de maneira colaborativa com toda a equipe multidisciplinar envolvida na realização do exame radiológico;
  • Aplicar corretamente técnicas radiológicas específicas para diferentes propósitos diagnósticos ou terapêuticos;
  • Identificar precisamente as estruturas anatômicas que são alvo do estudo;
  • Liberar e fornecer as devidas orientações ao paciente sobre a retirada do exame ou as próximas condutas a serem seguidas.

A relação entre teoria e prática é vista como indispensável. Roegiers enfatiza que esta deve priorizar a abordagem por competências para que a aprendizagem seja verdadeiramente significativa. O objetivo primordial é capacitar o discente a mobilizar seus recursos pré-adquiridos e aplicá-los na resolução de situações-problema. Dessa forma, a teoria tem sua aplicabilidade testada no mundo real, conferindo sentido e propósito ao conhecimento previamente aprendido e permitindo que o aluno compreenda a finalidade de seu estudo.

Nesse panorama, integrar os saberes do “saber-fazer” e do “saber-ser” significa empregar os conteúdos abordados de maneira concreta em situações da vida real. A responsabilidade de transpor o aprendizado do contexto escolar para o quotidiano do ambiente profissional recai sobre o docente. Durante esse processo de transferência de conhecimentos e integração de saberes, o professor pode apresentar casos-problemas, conhecidos como “situações de integração”. O desafio é instigar os alunos a buscarem a resolução dessas situações, nas quais a associação de diversos conhecimentos e habilidades é exigida. É por meio da prática que os alunos trabalham ativamente para solucionar as questões apresentadas.

No cotidiano da prática docente, é comum observar que alguns estudantes, embora dominem a matéria teoricamente, demonstram dificuldade em utilizar esse conhecimento para resolver situações-problema reais. É por essa razão que o professor-orientador precisa ensinar a correlacionar os “saberes” com o “saber-fazer” e o “saber-ser”, buscando a verdadeira integração. Roegiers apresenta considerações cruciais que os mentores devem ter em mente:

  • A integração só é possível se o aluno possuir e dominar os diferentes recursos: os saberes (conhecimento), o saber-fazer (habilidades) e o saber-ser (atitudes e comportamentos).
  • A integração ocorre se o aluno conseguir reinvestir os conhecimentos adquiridos em um contexto novo, caracterizado como uma situação-problema inédita. Essa situação, via de regra, é mais complexa e rica do que simples exercícios ou fichas de sala de aula, pois demanda a mobilização de múltiplos saberes e saberes-fazer interligados.
  • Finalmente, a integração exige o envolvimento pessoal do aluno na resolução da situação-problema. O estudante deve ser o protagonista na busca pelos saberes e saberes-fazer necessários, articulando-os para solucionar a questão. Rogiers reitera que “ninguém pode integrar no lugar do outro”, enfatizando a natureza ativa e individual do processo integrador.

As Perspectivas de David Ausubel: Aprendizagem Significativa

Outro autor fundamental referenciado no contexto pedagógico é David Ausubel, cujas teorias impactaram significativamente a compreensão da aprendizagem. De origem humilde, filho de imigrantes judeus da Europa central, Ausubel demonstrou insatisfação com a educação que recebeu na infância, revoltando-se contra os métodos punitivos e humilhantes que considerava rotineiros nas escolas de sua época. Ele descrevia a educação como uma experiência violenta e reacionária para os alunos, chegando a relatar um episódio marcante em um de seus livros:

“Escandalizou-se com um palavrão que eu, patife de seis anos, empreguei certo dia. Com sabão de lixívia lavou-me a boca. Submeti-me. Fiquei de pé num canto o dia inteiro, para servir de escarmento a uma classe de cinquenta meninos assustados (). Para ele, a escola é um cárcere para meninos. O crime de todos é a pouca idade e por isso os carcereiros lhes dão castigos.” (AUSUBEL, p-31)

Sua postura era radicalmente contrária ao ensino mecanicista e automatizado, o que o tornou um proeminente representante do cognitivismo. Ausubel propôs uma aprendizagem focada no processo de compreensão, intensificando a visão do aprendizado como um armazenamento organizado de informações e saberes. Ele refutava a ideia de que a aprendizagem fosse um evento mágico que ocorria espontaneamente pelo simples contato com conhecimentos teóricos ou práticos. Nesse sentido, a responsabilidade de agrupar e organizar esses conhecimentos era atribuída a um fenômeno mental individual.

Contudo, para Ausubel, o processo de compreensão não deve ser deixado apenas à mercê do aluno. Ele precisa ser trabalhado e exercitado pelo docente, de forma que o aprendiz possa utilizá-lo no futuro com eficácia. Assim, o conhecimento já estará organizado e integrado, ou seja, aprendido com sentido e significado para o estudante.

No modelo de Aprendizagem Significativa proposto por Ausubel, o aluno necessita visualizar, sentir e atribuir sentido à informação para que o processo de ensino-aprendizagem seja eficaz. Isso implica interagir com o novo conteúdo e conectá-lo a conceitos relevantes que já existem na estrutura cognitiva do estudante. Ausubel compreende que a aprendizagem significativa acontece quando o conhecimento prévio do aluno, mesmo que em um plano intelectual incipiente, aliado à condução pedagógica do professor, capacita o discente a ser receptivo à descoberta. Isso, por sua vez, desperta o interesse pelo que está por vir, permitindo que o aluno assimile o conjunto de novos conceitos de maneira sólida e duradoura.

Os Organizadores Prévios e os Subsunçores

Para facilitar a ocorrência da aprendizagem significativa, Ausubel sugeriu a utilização de “organizadores prévios”. Essas premissas servem como uma introdução ao conteúdo de fato, estabelecendo uma fundamentação antes que a nova aprendizagem seja apresentada. A intenção é que esses organizadores despertem o interesse e o significado no aluno, auxiliando-o a desenvolver os “conceitos subsunçores”. Os subsunçores funcionam como “âncoras” mentais, elementos já presentes na estrutura cognitiva do aluno que servem de elo para que os novos conhecimentos possam ser fixados e integrados de forma coerente.

Como ferramenta introdutória, os organizadores prévios devem ser empregados antes da apresentação dos conteúdos curriculares principais. A função primordial é atuar como “pontes” cognitivas, ligando os saberes pré-existentes do aluno àquilo que ele deverá aprender. Essa ponte facilita a introdução do novo conteúdo, o que, por sua vez, potencializa a ocorrência de um aprendizado realmente significativo, pois a informação nova encontra um arcabouço para ser assimilada.

Ao planejar suas aulas, o docente deve atentar-se ao uso de vocabulário que seja familiar ao aluno. Essa prática inicial contribui para que o estudante perceba o material didático com valor pedagógico, diminuindo barreiras de compreensão. No entanto, à medida que o conteúdo progride e a complexidade aumenta, é fundamental que o educador introduza gradualmente o vocabulário técnico específico da área, especialmente no contexto da Radiologia, um campo da medicina rico em terminologias próprias e indispensáveis para a prática profissional.

A teoria de Ausubel, portanto, atribui ao professor um papel social de grande relevância, em parceria com a escola. A meta é facilitar a aquisição do conhecimento na formação dos indivíduos, sempre considerando a bagagem de experiências e saberes que o aluno já possui e visando a formação integral do ser, capacitando-o para o entendimento e aplicação prática de sua futura profissão.

Com informações de radiologia.blog.br

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