A urografia excretora figura entre os exames contrastados mais solicitados na prática médica, especialmente para a avaliação aprofundada do sistema urinário. Este procedimento de imagem desempenha um papel fundamental no diagnóstico de diversas condições que afetam rins, cálices renais, pelve, ureteres e bexiga, fornecendo informações essenciais sobre a porção coletora do sistema e a funcionalidade renal.
Objetivo e Indicação Clínica
O propósito central da urografia excretora é visualizar detalhadamente a anatomia e a capacidade de funcionamento dos rins. Sua aplicação é vasta e indicada em diversas situações clínicas, auxiliando na investigação de quadros como:
- Cálculos renais e ureterais, que podem obstruir o fluxo urinário e causar dor intensa.
- Massa abdominal ou pélvica, para identificar anomalias estruturais nos órgãos urinários ou adjacentes.
- Dor no flanco, um sintoma comum de problemas renais ou ureterais.
- Hematúria (presença de sangue na urina), investigando sua origem no trato urinário.
- Insuficiência renal, para avaliar a extensão do dano e as causas.
- Hipertensão arterial, especialmente nos casos de suspeita de causa renovascular.
- Infecções do trato urinário recorrentes ou complicadas.
- Traumatismo renal, para verificar a integridade dos rins após um impacto.
- Estenose do ureter, identificando estreitamentos que dificultam a passagem da urina.
Esta gama de indicações demonstra a relevância da urografia excretora como uma ferramenta diagnóstica versátil e importante para urologistas e nefrologistas.
Preparo do Paciente para o Exame
Devido à localização posterior dos órgãos urinários em relação ao intestino, um preparo intestinal específico é indispensável para a qualidade das imagens. A presença de gases ou fezes no cólon pode sobrepor estruturas importantes e comprometer a visualização de patologias, como cálculos ou estenoses.
O preparo é iniciado na véspera do exame e geralmente compreende:
- Um jantar leve, preferencialmente sopa, na noite anterior.
- Jejum de 12 horas antes do procedimento.
- Administração de dois comprimidos de laxante antes de dormir na noite anterior.
- Manutenção do jejum absoluto (inclusive de água) até o horário marcado para o exame.
A correta adesão a estas orientações é fundamental para garantir a limpeza intestinal e a precisão do diagnóstico.
Primeiras Etapas do Procedimento
Ao iniciar o exame, o paciente é posicionado em decúbito dorsal (DD) para a realização de uma radiografia simples de todo o abdome, também conhecida como “abdome simples”. Esta imagem preliminar cumpre várias funções cruciais:
- Permite a verificação das técnicas radiográficas e do posicionamento adequado do paciente.
- É uma forma de confirmar se o preparo intestinal foi eficaz, observando a ausência de excesso de gases ou resíduos fecais que poderiam obscurecer as estruturas urinárias e mascarar achados importantes como cálculos ou estenoses.
Controvérsia sobre a Faixa de Compressão Abdominal
Um ponto de discussão frequente entre profissionais da área e na literatura médica concerne o momento ideal para a aplicação da faixa de compressão abdominal: antes ou depois da administração do meio de contraste. Especialistas com ampla experiência na realização deste exame, ao longo de quinze anos de prática, sugerem que a faixa seja aplicada imediatamente após o término da injeção do contraste.
Os argumentos a favor desta abordagem incluem:
- Conforto do Paciente: A aplicação da faixa antes do contraste pode intensificar o desconforto, já que o paciente frequentemente se encontra em estado de tensão devido a preocupações com o exame, o resultado e a possibilidade de reações ao contraste. Minimizar fatores de estresse é uma prioridade.
- Segurança em Casos de Reação Alérgica: Se ocorrer uma reação alérgica ao meio de contraste, a faixa de compressão poderia dificultar o atendimento emergencial e a prestação de socorro ao paciente, atrapalhando a avaliação abdominal e a liberdade de movimento necessária para intervenções.
Assim, a prática recomendada prioriza a segurança e o bem-estar do paciente sem comprometer a eficácia do exame.
Administração do Contraste e Início do Cronograma
Após a radiografia simples de abdome e a confirmação de um preparo adequado, procede-se à aplicação do meio de contraste. Geralmente, utiliza-se uma dose de aproximadamente 1 a 1,5 mililitros por quilo de peso corporal do paciente, administrada por meio de um acesso venoso periférico, tipicamente puncionado com um scalp (tipo “buderflay”) de calibre 19 ou 21. No exato momento em que a aplicação do contraste se inicia, um cronômetro é acionado, marcando o tempo para as sequências de imagens subsequentes.
Sequência de Imagens e Intervalos Cruciais
A Urografia Excretora segue um rigoroso cronograma de radiografias para capturar a passagem do contraste pelos diversos segmentos do trato urinário:
- Pós-aplicação Imediata: Assim que a injeção do contraste é concluída, a faixa de compressão abdominal é aplicada conforme a sugestão técnica já mencionada.
- Aos 5 Minutos: É realizada uma radiografia do abdômen superior, utilizando um filme de 24×30 centímetros na orientação transversal. Esta imagem tem como objetivo principal visualizar o contraste nos cálices renais, marcando a chegada inicial do meio de contraste aos rins. Embora alguns serviços optem por uma “néfron” logo após a aplicação para observar a parede renal, a necessidade e o benefício adicional desta incidência são questionados por profissionais experientes, que consideram a exposição adicional à radiação desnecessária por sua limitada importância diagnóstica nesta fase inicial.
- Aos 10 Minutos: Uma segunda radiografia transversal (24×30) é obtida, prosseguindo a avaliação do fluxo do contraste.
- Aos 15 Minutos: Uma terceira radiografia transversal (24×30) é realizada. Estas imagens temporizadas (5, 10 e 15 minutos) são de extrema importância. Profissionais urologistas e especialistas da área ressaltam a necessidade de se respeitar rigorosamente esses intervalos. Patologias específicas podem se manifestar de forma transitória entre um tempo e outro, e uma eventual omissão ou simplificação desta sequência (por exemplo, realizando apenas uma ou duas imagens) pode levar à perda de informações diagnósticas valiosas, comprometendo a identificação precisa da condição do paciente.
Manutenção da Faixa de Compressão e Etapas Finais
A utilização da faixa de compressão, embora às vezes preterida por alguns para agilizar o serviço, é reconhecida pelos urologistas como fundamental para evidenciar determinadas patologias. A compressão retém o contraste na porção superior do trato urinário, facilitando a visualização dos detalhes e permitindo que informações cruciais para o diagnóstico sejam obtidas.
As etapas finais do exame incluem:
- Liberação da Faixa de Compressão: Após a radiografia localizada de 15 minutos, a faixa de compressão é liberada, permitindo que o contraste flua livremente pelos ureteres até a bexiga.
- Aos 20 Minutos: Realiza-se uma radiografia panorâmica de todo o abdome (abdome simples). O objetivo é visualizar os ureteres e a bexiga preenchidos com o contraste injetado, acompanhando sua progressão pelo sistema.
- Aos 25 ou 30 Minutos: Uma radiografia localizada da bexiga é feita, utilizando um filme de 18×24 centímetros na orientação longitudinal, com a bexiga cheia de contraste. Esta imagem oferece uma visão detalhada da bexiga.
- Radiografia Pós-Miccional: Após a confirmação de que o contraste foi devidamente excretado pelas vias urinárias, o paciente é orientado a esvaziar a bexiga. A última radiografia, a pós-miccional, é então realizada. Esta pode ser uma imagem localizada (18×24) ou uma de abdome simples (35×43). Esta última permite a reavaliação dos rins, confirmando a completa excreção do contraste e verificando se há algum resíduo na bexiga ou outras alterações após a micção.
O exame pode incluir incidências adicionais, cuja necessidade é determinada com base na patologia observada ou na exigência de maior detalhamento de uma região específica, visando um diagnóstico mais completo e preciso.
Com informações de Radiologia Blog
